Ubunteiros — uns nativos, outros egressos do Windows


A maioria de nós vive tão confortável no universo Windows que nem imagina que exista vida inteligente fora dele. Mas existe sim.
Num rápido levantamento feito entre pessoas não necessariamente da área de sistemas, é surpreendente ver quantos usuários já migraram ou estão migrando para soluções não microsoftianas. No topo da pirâmide desses aventureiros, temos os usuários do Mac, da Apple, a elite dos informatas. Mas, e para nós do povaréu?
É claro que, para quem pode desembolsar R$ 900 por uma versão modesta de Windows 7 e Office 2010 (a versão mais feroz dessa dupla de programas sai por R$ 2.100), não há motivo para querer se aventurar fora das asas da Microsoft.
Mas aos que não têm essa bala na agulha restam poucas opções. A primeira delas — e, infelizmente, a mais comum — é usar Windows e Office piratas, o que é crime. Já no universo dos honestos, temos os sistemas operacionais de código aberto, sendo o Linux o mais famoso deles, com suas várias distribuições, ou “distros”, em português (http://bit.ly/distroslinux). Elas funcionam mais ou menos como religiões ou times de futebol: cada um prefere uma distro e às vezes o pau come quando um mancebo quer convencer o outro que sua distro é melhor a que a dele.
Minha experiência pessoal no salto para o Ubuntu foi até bem tranquila. Veja aqui.
E você? Quer experimentar?
O pontapé inicial para quem quiser dar os primeiros passos no Ubuntu é ir ao site oficial e baixar a imagem ISO do CD de instalação (bit.ly/ubuntuiso), que é um arquivão de uns 700 megas que pode ser “carimbado” em um CD gravável virgem, usando programas como o Nero, que é pago, ou os gratuitos Free Burn-Create ISO (bit.ly/queima1) e outros (bit.ly/outros).
O que mais a turma reclama é na hora de trocar o Microsoft Office pela suíte gratuita Br-Office (broffice.org), que é a versão abrasileirada do antigo StarOffice, da boa e velha empresa Sun Microsystems (firma comprada em janeiro de 2010 pela Oracle, que rebatizou o pacote como Oracle Open Office). O BrOffice vem com corretor ortográfico atualizado pela nova norma do português.
Mas, na verdade, não tem sebo nenhum, é suíte é bem parecida com o Office da Microsoft. Há diferenças sim, mas não são nenhum bicho de sete cabeças. Basta uma rápida visitinha ao “Ajuda“ (Help), escrito em nossa língua, e as dúvidas vão sumindo uma a uma.
O BrOffice lê e salva nos formatos nativos do Word, do Excel e do PowerPoint. Aliás, saber usar BrOffice já está se tornando um diferencial na hora de ser chamado após passar em alguns concursos públicos, pois vários órgãos estão adotando software aberto em suas repartições (vide bit.ly/cr7kKO).
Um ponto adicional a considerar é que a grande maioria dos usuários de Word, Excel e PowerPoint usa menos de 10% das capacidades desses excelentes (e caros) programas. Ou seja, essas pessoas podem perfeitamente migrar para Br-Office sem jamais sentir falta de função alguma.
Para quem utiliza programas que só rodam em Windows, o Ubuntu possui um utilitário chamado Wine que faz funcionar maioria dos programas executáveis de código microsoftiano. Para os casos mais extremos, a saída é criar dentro do Ubuntu uma máquina virtual gratuita via VMWare Server (bit.ly/tutvmware) e nela instalar uma versão de Windows só para rodar esses softwares teimosos.
Preparando-me para escrever esta matéria, soltei via GoldenList uma convocação, conclamando usuários do Ubuntu a contarem suas experiências. Graças à valiosa ajuda de Paulino Michelazzo, que postou meu apelo na newsletter do Br-Linux.org, obtive ótimo retorno — conheci personagens super-simpáticos e cheios de histórias bacanas sobre suas experiências.
Conheça alguns desses ubunteiros de mão cheia.

Em resposta ao chamado feito no BR-Linux, recebi um email de Marco André Mendes.
— Gostaria de informar que meu filho Gabriel, hoje com 10 anos de idade, utiliza Ubuntu desde 2008 aproximadamente. Ele o usa em casa e na escola — disse Marco. — O contato dele com Windows é pequeno, apenas algumas vezes na casa dos avós. Mas ele prefere o Ubuntu e quer que eu o instale lá também.
Liza Mendes (foto), irmã de Gabriel com 4 anos, também utiliza Ubuntu desde nova, em casa e na escola dela, onde o próprio pai instalou o laboratório educativo de informática.
— Claro que a Liza usa muito menos o Ubuntu do que o Gabriel. Mas ela já utiliza o navegador, o software educativo GCompris, o programa de desenho Tuxpaint, e o joguinho Homem Batata, entre outros. Também acessa bastante o Escola Games e o site do Smilinguido — explica Marco.
Liza fará 5 anos agora em novembro. Ela está no Jardim e é ubunteira desde que começou a mexer no computador, com cerca de 2 anos de idade.
Marco André é amigo pessoal do Augusto Campos, do br-linux.org, há mais de 20 anos e utiliza Linux, por recomendação dele, desde 1999. É professor universitário e tem utilizado Linux e Software Livre nas aulas desde então. Atualmente, trabalha no Instituto Federal Catarinense em Araquari (SC), próximo a Joinville, e lá participa de um projeto que visa a eliminar a pirataria da instituição. Atualmente, todos os laboratórios e a maioria dos computadores administrativos e servidores rodam Linux, principalmente Ubuntu.
— Temos um grupo de usuários Linux em Joinville e organizamos Install Fests e o FLISOL há alguns anos — explica. — Além do envolvimento com Linux e Ubuntu (tenho alguns amigos que trabalham na Canonical), sou um dos fundadores da Associação Python Brasil, entidade não governamental que ajuda na divulgação da linguagem python e tecnologias relacionadas. Organizamos anualmente um evento chamado Python Brasil, que está na sexta edição, e conta com palestras nacionais e internacionais, minicursos e uma série de outras atividades. A edição deste ano será de 21 a 23 de outubro na UFPR em Curitiba (PR) e conta com patrocinadores de peso, como Globo.com e SERPRO.
Marco mantém um blog (http://marrcandre.blogspot.com/), onde escreve sobre todas essas atividades.
RODRIGO CARVALHO SILVA


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Na foto acima, Rodrigo (27 anos) aparece com sua esposa Juliana (26), no evento FLISOL 2009, em que participou da organização. Rodrigo é analista de sistemas e seu primeiro contato com Ubuntu foi em 2005, quando ganhou um CD de um colega de trabalho que havia pedido os CDs gratuitos pelo site. Juliana, que é economista, também é usuária Ubuntu.
— Naquela época eu estava testando algumas distribuições Linux, mas o Ubuntu foi a que mais me agradou por oferecer um conjunto simplificado de aplicações pré-instaladas — conta Rodrigo. — Tudo funcionou perfeitamente, sem muitas intervenções manuais.
Rodrigo instalou o Ubuntu em “dual-boot” e nunca mais encostou no Windows. Há muito tempo ele estava querendo deixar de usar o sistema da Microsoft pelos seguintes motivos: instabilidade; necessidade de reformatar o HD com muita frequência; insegurança, que levava à instalação de vários programas de segurança que comiam memória RAM e, com isso, reduziam o desempenho do computador; e uma insatisfação com a interface do sistema, exemplificada pela desorganização do menu “Iniciar” e as poucas opções de personalização.
— Só demorei a migrar de sistema, porque, na época, utilizava conexão discada e tinha um famigerado “winmodem” incompatível com Linux. Assim que coloquei banda larga em casa, nunca mais tive um Windows num computador meu — relata Rodrigo. — Aliás, nunca cheguei a ativar o Windows Vista que veio no meu notebook. Depois que casamos, Juliana também se acostumou muito rápido ao Ubuntu e também gosta mais dele do que do Windows.
As principais dificuldades que enfrentou naquele tempo eram com o Flash Player, cuja versão para Linux era muito ruim, e com os sites que não seguiam os padrões abertos e só funcionavam no Internet Explorer 6 e que ainda eram numerosos. Nesses casos ele adotava um critério: “se um site só funciona no IE6, então não é bom o suficiente para me ter como leitor ou visitante”.
Sobre a documentação, a que existia na época era basicamente em inglês, pois a comunidade brasileira ainda estava nascendo. Mas isso não foi problema para ele, que sabia ler no idioma da Rainha. Contudo, atualmente, os usuários brasileiros não precisam mais saber esse outro idioma, já que a documentação em português está bastante completa e a comunidade brasileira já é bem grande e em geral está entusiasticamente disposta a ajudar.
— Eu não tenho nenhuma necessidade do Windows, mas sei que elas ainda existem para alguns tipos de usuários. Por exemplo, a maioria dos jogos mais sofisticados só foram lançados para Windows e, em alguns momentos, o pacote de escritório BrOffice ainda deixa a desejar em comparação ao da Microsoft — esclarece. — Mas como uso o computador basicamente para internet e brinco um pouco com edição de áudio, o Ubuntu para mim é bastante completo, especialmente com o software especializado e gratuito UbuntuStudio.
Rodrigo é o responsável pelo blog www.rodrigocarvalho.blog.br e, este ano, está ajudando a organizar um outro evento que promete fazer tanto ou mais sucesso que o FLISOL 2009. Ele se chamará Gnugraf (http://www.gnugraf.org/) e está na sua terceira edição. Seu foco é voltado para profissionais das áreas de computação gráfica, edição de áudio e vídeo. A edição 2010 terá lugar na Estação Leopoldina.
ROGÉRIO FERREIRA

Rogério mora em São Paulo, capital. Sua esposa se chama Priscila Ferreira (30 anos) e seu filho é o Rogerio Ferreira Junior (na foto acima, com o pai), com 6 anos — ambos nunca usaram Windows. Mas já utilizaram algumas distros de Linux, tais como Debian, CentOS, Ubuntu e openSUSE.
Convenhamos que para esses dois é mais fácil pois, afinal de contas, eles têm em casa um camarada bamba no assunto. Rogério inaugurou a seção de segurança da revista Linux Magazine e a seção Programando.com da revista Locaweb. Foi autor do projeto de software livre no governo estadual do Amazonas e participou do projeto de Zope e Plone no governo federal.
Palestrante em importantes eventos de software livre, como PyCon Brasil, CONISLI, FLISOL e FISL, participou também proferindo palestra no primeiro LinuxCon no hemisfério sul e no primeiro Xen Directions South America. Possui as certificações do Linux Professional Institute, LPIC-1, LPIC-2, LPIC-3 e LPI-302 (Mixed Environment).
Rogério é idealizador e instrutor do treinamento hands-on e virtualização profissional com Xen, da Linux Solutions. Em parceria com a Casa do Linux, ele criou o HowToDay. De quebra, é embaixador do openSUSE.
Em resumo, o cabra é fera no babado.
MAURÍCIO OPERTI

Maurício Operti, 43 anos, tem formação em informática na UERJ que nunca chegou a completar o curso. Ele atua na área de TI no setor bancário.
— Limei o Windows do meu desktop em algum momento entre 2003 e 2004, adotando o Suse (uma distro de Linux), depois de manter dual boot desde 2000/2001 com Conectiva, Red Hat e o que mais aparecesse no caminho — conta Maurício. — Migrei para o Ubuntu faz uns 2 ou 3 anos, na versão 8. Agora estou com a 10.04. Tive diversos problemas, mas nenhum arrependimento. Claro que ajuda muito o fato de eu ser da área de tecnologia.
Maurício era usuário do BBS de Charles Miranda, o Hot-Line (depois Inside), nos bons tempos de antes da internet.
— Pelo tempo de estrada, dá para dizer que o meu caminho com Linux no desktop foi mais suave — avalia.
FRANCISCO DREYFUSS

Em 1996, um certo gente boa tirou o primeiro lugar nacional no concurso para o Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região: Francisco Assis de Paiva Dreyfuss. Ele é um dos que tem uma história de amor com o Ubuntu.
— Desde criança me apaixonei por informática. Passei de programador BASIC no colégio Técnico da Rural (CTUR) (MSX) a Administrador de Rede do TRT — contra Dreyfuss. — Hoje atuo como especialista de TI, buscando, além de softwares livres para serem implementados aqui no TRT para facilitar o monitoramento de rede, alternativas a softwares caríssimos para serem usados em escala, como o Office e o CAD.
Dreyfuss tem formação em administração de redes, segurança (firewall) e cliente servidor, tudo em Linux. Ele começou no Conectiva Linux.
— Lembro-me muito bem disso, pois estava justamente tendo aula quando ocorreu o triste episódio das torres gêmeas de 11/09, há exatos 9 anos — rememora. — Desde então venho me apaixonando cada vez mais por Linux em servidores. No caso do Ubuntu, meu contato foi quando perdi trabalho quando fui usar um CD.
Na ocasião, ele já tinha ouvido falar no Ubuntu pela boca de um entusiasta que trabalhava no TRT, e decidiu experimentar, livrando-se de qualquer preconceito com relação a suporte e confiabilidade. Foi aí que o Ubuntu o surpreendeu. Ao contrário do que imaginava, ele nunca ficou na mão, em matéria de suporte, no reino Ubuntu.
— Para qualquer dúvida que tinha (e ainda tenho) facilmente encontro a solução em fóruns espalhados pela rede — afirma Dreyfuss. — E acho essa solução muito mais rápido do que encontraria se precisasse da mesma orientação em Windows pelo suporte da Microsoft.
Dreyfuss está plenamente convencido de que não há nada, absolutamente nada que se faça usando Windows que não possa ser feito, e melhor, no Ubuntu.
— Fica só a minha indignação com alguns sites de bancos, como o da Caixa Econômica Federal, por exemplo, que não rodam corretamente em Firefox com sabor “ubuntuizado”. Falam que a versão do Firefox não é compatível, o que é ridículo — reclama. — Mas como tudo tem solução, eu abro, no próprio Ubuntu, uma versão em Wine do Firefox para Windows e voilá! Tenho acesso normal ao site da CEF. É maravilhoso.
Desde então, Dreyfuss só usa Linux, até mesmo para emular tarefas de programas exclusivos de Windows, como o monitoramento do checkpoint (firewall) nos sistemas do TRT.
Adepto ferrenho de software livre, ele usou Qcad, um programa de CAD grátis, até no planejamento de seu casamento. No Tribunal, já ajudou muita gente a ler alguns arquivos que a suíte Office não lia.
— Em casa, por exemplo, meu pai tinha o Windows Vista. A cada 30 minutos ele ligava para mim para tirar uma dúvida. Às vezes era um aviso de vírus, outra era um programa que não respondia. Não pensei duas vezes, instalei o UBUNTU para ele — relata Dreyfuss. — Resultado: estou com saudades do meu pai. Ele agora só fala comigo via email. E olha que ele mesmo instala os programas agora, no Ubuntu. Abre vídeos, adiciona-os aos seus favoritos e coisas do tipo. É claro, tudo isso com o Firefox. Falei para ele que nem precisa se preocupar com vírus, e, se algo acontecer mais sério, simplesmente por telefone mesmo dou as coordenadas para ele criar um novo usuário. Mas é claro que não darei a ele a senha de root (que é o usuário mais privilegiado num sistema UNIX-like).
No trabalho, Dreyfuss já está “evangelizando” seus colegas. Vários deles já migraram parcialmente para o Ubuntu já na versão 10.04, a Lucid Lynx. As pessoas sempre lhe perguntam se o Linux não trava mesmo, como se o micro travar fosse coisa normal.
— Eu respondo que sim, um programa pode até travar. Mas no Ubuntu só aquele programa específico é que trava — explica. — No máximo você perde o que estava sendo feito naquele programa, permanecendo os outros intactos. As pessoas não têm ideia de como isso é fantástico.
Dreyfuss decidiu abolir totalmente o Windows quando estava para imprimir sua monografia, de 96 páginas, ocasião em que tinha mais algumas planilhas abertas e o Internet Explorer também aberto. Ao inserir um CD no leitor, simplesmente recebeu pela cara um dump de memória que jogou todo seu dos 20 minutos anteriores no lixo.
— A partir desse dia, eu, que tinha uma máquina híbrida (dual boot), fiquei somente com o Lucid para me acompanhar diariamente e, cá para nós, ele nunca me deixou na mão — complementa. — Estou no Ubuntu desde a versão 9.10 (Karmic Koala) e já a instalei em casa até como Home Theater. Isso mesmo, um Home Theater totalmente gratuito. E o sistema saiu por apenas R$ 360 reais, incluindo hardware e software. Instalei-o na igreja, para as obras sociais e de inclusão digital. Realmente é um mundo maravilhoso e cheio de possibilidades. Se eu fosse ficar aqui elencando para você as vantagens desse sistema operacional, não pararia mais.
Nos emails que Dreyfuss envia, a assinatura final das mensagens traz a frase: “Feel the freedom, use Ubuntu” (Sinta a liberdade, use Ubuntu).
HENDERSON BARIANI

Henderson Bariani, de 35 anos, mora na cidade de Osvaldo Cruz, no interior de São Paulo. Iniciou seus estudos para técnico em processamento de dados na Faculdade de Ciências da Computação mas interrompeu o curso no segundo ano. Atualmente atua como auxiliar administrativo numa escola técnica do Centro Paula Souza.
No final de agosto precisou trocar seu bom e velho notebook Positivo por um netbook. E descreveu todo o processo num excelente post no blog Depokafé (http://bit.ly/escolhendo). Nem preciso dizer qual foi o sistema operacional escolhido para o netbook.
Henderson contou como foi que se meteu com o Ubuntu.
— Eu trabalhava como técnico de manutenção e meu trabalho era basicamente formatar e reinstalar o Windows o dia inteiro, e isso me frustrava. Queria um sistema mais robusto, mais seguro, que não se corrompesse com tanta facilidade — relata Henderson. — Um amigo me falou de Linux, Slackware, era o que tinha na época, ou seja 1997/1998. Mas esse sistema não rodava no meu PC por causa do hardware. Foi só depois, com o Conectiva Marumbi, que consegui fazer funcionar, precariamente, o Linux na minha máquina.
Daí por diante foi um longo período de adaptação, em que não havia muita escolha de softwares e o suporte ao hardware era ruim. Henderson só conseguiu acessar a internet pelo Linux depois de trocar de modem, e mesmo assim com muita luta. Passou um tempo com dual boot e só nos idos de 2001 passou a usar Linux direto. Mas ficava trocando de distribuição toda hora, pois não encontrava uma que o agradasse totalmente, que estivesse sempre atualizada e que oferecesse uma boa seleção de softwares.
— Aí eu conheci o Ubuntu, em 2006 — relembra. — Estavam falando bem dele nos fórums pela internet e resolvi testar. A primeira versão que eu instalei foi a 6.10. Foi amor à primeira vista. Rápido, bonito, estável, e com um ciclo de seis meses de atualização, que era o que eu queria. Desde então sempre mantive meu PC atualizado com a mais recente versão do Ubuntu, que instalei também no meu notebook e, agora que o vendi, no netbook.
Henderson avaliou quais circunstâncias mais usualmente motivam micreiros a abandonar o Windows pelo Ubuntu. De acordo com sua experiência, as pessoas só trocam de sistema operacional se estão muito insatisfeitas com alguma característica. Ele verificou que, no caso do Windows, tem gente que se cansa de levar o micro para formatar todo mês (às vezes até mais de uma vez por mês) por causa dos vírus, trojans e outros malwares.
— Na época do Windows 95/98 era pior ainda, pois o sistema ficava mais lento com o tempo, e tinha que formatar no minimo uma vez por ano, mesmo que não tivesse outros problemas, já que a máquina fica inutilizável depois de um período — recorda Henderson. — Hoje em dia os Windows Vista e Seven melhoraram muito nesse sentido, até na segurança. Mas principalmente o Vista é muito pesado, a máquina se arrasta com ele, e muita gente compra esses PCs “populares” com configurações ruins, e sofrem com a performance baixa. Então, acho que é por causa da lentidão de algumas máquinas, e principalmente pela pouca segurança, que um usuário mediano procura o Linux. Como o Ubuntu é a distribuição mais conhecida no momento, é essa que eles testam, e gostam.
Na visão de Henderson, o pessoal mais aficionado a sistemas é a turma que mais usa Ubuntu e Linux em geral.
— Isso porque eles têm mais acesso à informação, ou porque usam na faculdade, ou porque gostam de tirar o máximo do computador, nem que seja por um pouco a mais de performance, ou porque gostam de personalizar o sistema ao extremo, o que é mais “amarrado” de fazer no Windows — elucubra. — Com a liberdade que o Linux dá, você o deixa com a cara que quiser, e micreiros gostam de personalizar a máquina, tanto “dentro”, como “fora”, com aqueles mods (modificações) de gabinete invocados, por exemplo. E também porque eles não têm medo de fuçar na máquina e são menos resistentes a mudanças, principalmente os mais jovens. É gente apaixonada pelo PC, que não vê a máquina só como uma ferramenta. É difícil de explicar o sentimento para quem não é do ramo, mas é por aí.
SANDY RISONHO

Mauro e Sandra (Sandy) Risonho moram em Cosmópolis (SP), próximo a Campinas. Mauro abandonou o Windows anos atrás e desejava que Sandy e as crianças não usassem o sistema da Microsoft. Conseguiu o que queria com relação à esposa, mas não teve como controlar os filhos.
Mauro trabalha no projeto BackTrack (http://www.backtrack-linux.org/), uma distro Linux voltada para testes de penetração em sistemas, por meio de um ambiente funcional dedicado ao “hacking” do Bem. Ele é fundador da versão brasileira do projeto, na qual é responsável pela moderação de mensagens e pela tradução de conteúdo.
Sandy (40 anos), por sua vez, atua na área de saúde como técnica de enfermagem e enfermagem do trabalho. Ela adora o Ubuntu e seu primeiro contato com ele foi também sua primeira experiência com computadores.
— Recebi alguns CDs de Ubuntu do Canadá — conta Sandy. — Logo os instalei e comecei a usar. Windows? Não uso. Só tenho Ubuntu em casa. E acho facílimo. Nem tenho termo de comparação com outros sistemas, pois é o único que utilizo.
Alguns conhecidos seus nem sabem o que é Linux. Mas Sandy explica que é algo que substitui o Windows, com as vantagens de que não tem vírus, não trava e permite ao usuário trabalhar com tranquilidade, além de oferecer uma grande variedade de programas gratuitos, jogos, planilhas de escritório e outros softwares bastante úteis.
— Dizem quem Linux é para pessoas superestudadas, que é difícil e complicado. Alegam que é um sistema para servidores parrudos, um software que requer um computador superveloz — observa Sandy. — Mas não é nada disso. Faço qualquer coisa com Linux. E olhe que aqui em casa temos computadores muito rápidos e outros mais velhos. E o Ubuntu roda numa boa nos dois tipos de máquina. Não preciso adquirir um computador possante apenas para rodar uma versão nova do Linux, ao contrário do que se dá com as pessoas que usam Windows.
Sandy destaca o quão interessante e gratificante é não ter que pagar licenças de uso no Linux e seus programas. Com o dinheiro que teria que desembolsar para adquirí-las, caso usasse a linha Microsoft, ela pode comprar coisas mais importantes, como peças, equipamentos e outros itens.
Ela se lembra de quando foi com o marido a um evento de Linux, o VOL DAY 2. Mauro iria palestrar lá.
— Não só nesse evento, mas em vários outros a que também fui, eu conseguia conversar confortavelmente com os outros palestrantes acerca de temas ligados a Linux — relata ela. — E eles ficavam impressionados com minha desenvoltura no assunto. Mas para mim era supernatural. Com a prática, meu conhecimento foi crescendo.
LUCAS BRAZ RAMOS
Lucas Braz Ramos tem 21 anos. Sua formação técnica é em informática e está se graduando na área de redes de computadores. Ele é responsável pela TI de sua escola e do Centro Social Marista Santa Marta, em Santa Maria (RS). Lucas afirma que 95% dos alunos só usam Ubuntu e nunca utilizaram Windows. Lucas é o “Linux User” número 508246.
— Temos dois laboratórios de informática com uma média de 20 micros cada, e o Centro Marista de Inclusão Digital — diz Lucas. — Os alunos da escola têm aula semanal de informática, em que os conteúdos trabalhados em sala de aula são desenvolvidos de forma diferente com aplicativos ou até mesmo em jogos educacionais. Por exemplo, a Olimpíada matemática com o Childsplay, o Gcompris para letras e números na fase de alfabetização, o Piviti para criação de vídeos para os alunos de 8ª série. E o editor de textos do BrOffice para criação de e-books.

A foto acima é de uma das turmas de jovens que usam Ubuntu no laboratório de informática. Lucas preparou uma galeria mostrando outras fotos da galera (bit.ly/lucasgaleria), sendo que só na última delas ele aparece sozinho.
Lucas ressalta que os laboratórios de informática rodam somente Ubuntu desde 2005, atendendo um total de 1.200 alunos, desde a educação infantil até a 8ª série, incluindo 12 projetos, tais como dança, teatro, melhor idade, informática e outros, atendendo à comunidade em turno integral.
— Quando foi feita a seleção para ocupar o cargo em que hoje atuo, o critério mais importante era ter conhecimentos de Ubuntu — conta Lucas.
Cleân Correa, de 15 anos, que começou sua formação como aluno e tornou-se estagiário monitor da Escola Marista Santa Marta, também é um dos adeptos do Ubuntu.
— Uso o Ubuntu há quatro anos — revela Cleân. — Gosto dessa distro porque ela tem ferramentas mais voltadas para a administração de sistemas, robótica e pelo fato de a programação do sistema ser em código aberto.
CARLOS VALENTE

Carlos Valente, marido da fotógrafa Sonia Rosemberg (conhecida como SoniaRO), experimentou o Linux e, dois meses depois, largou o Windows. Hoje é o “Linux User” número 483970. Em seu site particular, oferece um tutorial sobre como instalar o Ubuntu versão 10.04. O link é bit.ly/comoinstalar.
— Eu lembro que em outubro de 2008 instalei o Ubuntu no meu computador pela primeira vez e desde então adotei-o como meu sistema operacional — relata Valente. — Inicialmente em dual boot, convivendo com o Windows, já que ainda utilizava alguns programas que só rodavam no sistema da Microsoft. No entanto, com a ajuda do Wine, que permite a executar nesse ambiente software especificamente concebido para o Windows, consegui cortar o “cordão umbilical” com a Microsoft. Atualmente, só utilizo software livre.
Valente reconhece que nem sempre foi fácil. Ele tentou por diversas vezes utilizar outras distros, mas sem sucesso, fosse pela instalações frustantes e complicadas, fosse pela falta de bons softwares para trabalhar. Com o Ubuntu, porém, finalmente consegui se libertar do software proprietário.
— Fiz o curso de tecnólogo em processamento de dados na Estácio e trabalho com informática desde 1986 — relembra. — Meu último trabalho como empregado foi para a empresa Elevadores Schindler (atual Atlas), no setor de microinformática. Atuava no desenvolvimento de software em Clipper. Depois que sai de lá, em 1996, resolvi trabalhar como autônomo e passei primeiramente a desenvolver software em Visual Basic. Também montava e dava manutenção em computadores. Nessa época ainda morava no Rio.
Em 1998, Valente se mudou para Petrópolis, onde reside até hoje. Aos poucos parou de programar em VB e passou a trabalhar com desenvolvimento para web, utilizando softwares proprietários. Como se não bastasse as licenças de software serem caras, Valente ainda tinha que conviver com os constantes travamentos e telas azuis do Windows, além de com megaprogramas antivírus que exigiam muito espaço em disco e muita memória. Com tudo isso, ele começou a procurar no Linux um meio de se libertar dessa situação.
— Tive que me preparar psicologicamente para recomeçar tudo do zero — comenta. — Novo sistema operacional, novos programas e, sobretudo, indo contra todos os amigos que me diziam que Linux não prestava. Contudo, para minha surpresa, o Ubuntu era e ainda é um sistema bastante amigável. Em uma semana de uso, já estava completamente à vontade e já começava a estranhar o Windows.
Hoje, Valente usa 100% de software livre em seus dois desktops e prossegue fazendo sites em com PHP, MySQL e Joomla. Utiliza o Apache como servidor HTML, usa Skype e aMsn para mensagens instantâneas como seus clientes e amigos. Para acesso remoto aos computadores de seus clientes que usam Windows, Valente lança mão do Vinagre e do X11VNC. Para ler seus Feeds RSS, usa o Liferea. E para navegar tranquilamente na web, usa Firefox e Google Chrome. Em suma, não sente falta de nada que venha do Windows.
— Já convenci alguns amigos, bem como alguns clientes, a instalar o Linux em vez do Windows 7, como eles originalmente desejavam — vangloria-se Valente. — E fico feliz quando chego neles e só ouço coisas boas a respeito do Ubuntu que eles antes odiavam, mesmo sem jamais tê-lo conhecido. Até então, a imagem de Linux para eles era aquela tela preta com letrinhas verdes.
O próximo passo de Carlos Valente é aventurar-se no Debian, que é de onde o Ubuntu e muitas outras distros se originaram. A todos que pensam em vir para o Linux, ele diz a mesma coisa: “Ubuntu não é Windows”.
SHEYLA SANTOS ACIOLI

Sheyla Santos Acioli, é psicopedagoga, psicóloga e professora, atuando há mais de 10 anos no ensino fundamental. Em 2002 conheceu aquele que hoje é seu marido, Aderbal Botelho, que sempre foi usuário Linux e envolvido em comunidades e temas ligados a assuntos mais técnicos, tais como o Portal do Software Público Brasileiro (softwarepublico.gov.br). A partir dessa relação, iniciou-se também sua vida informática.
— Foi quando me vi rodeada por computadores, e todos eles rodando Linux — conta Sheyla. — Comecei a usar Linux quando morávamos em Maceió (AL). Mas logo depois já o estava usando para lecionar em algumas escolas do estado, através do Educatux (educatux.com.br), um método elaborado para educar usando computadores que utilizam apenas software livre.
Hoje, Sheyla e sua família moram em Brasília. Todos continuam utilizando o Linux nos trabalhos com Educatux nas escolas. Mas, segundo ela, os maiores usuários do metódo e do Linux em sua casa são seus filhos.
— Nossos filhos, Lucas e Bárbara, tiveram seu primeiro contato com computador no ambiente Linux de forma natural e divertida — jacta-se Sheyla. — E eles continuam utilizando o sistema para suas pesquisas e entretenimento. As crianças de hoje parece que já nascem conectadas. Conseguem descobrir o universo digital usando apenas o Linux e seus programas educativos.
Lucas tem 6 anos e usa Linux desde os 2, e Bárbara tem 4 e usa desde 1 ano e meio.
FELIPE E RAFAEL SCALABRIN DOSSO


Felipe Scalabrin Dosso (de 8 anos, o da foto de cima), e seu irmão Rafael (de 5 anos, da foto de baixo), começaram a usar computadores direto no Ubuntu, e somente Ubuntu.
— São completamente virgens de Windows. Acho que nem nunca viram a tela de boot. Os dois computadores de casa somente têm Ubuntu instalado — conta Luis Dosso, pai da duplinha. — A relação deles com o Ubuntu é bem bacana mesmo. No começo era mais para familiarizá-los com jogos educativos como o Childsplay e o Gcompris, que são excelentes. Mas é claro que rapidinho eles descobriram o SuperTux e outros jogos nem tão educativos.
Luis conta que não demorou muito para os meninos começarem a bagunçar sua área de trabalho no computador. A solução foi criar uma conta própria a ser compartilhada pelos dois. Só que uma conta única gerou certo desentendimento, fenômeno típico entre irmãos com essa diferença dessa idade. A solução foi criar uma conta separada para cada um, em que a senha é tratada por eles como “segredo de estado”.
— De vez em quando um deles esquece a conta aberta e o outro usa o computador, o que acaba gerando protestos do dono da conta — diz Luis. — Outra coisa bem legal é que espontaneamente eles se interessaram pelo jogo de xadrez, o Dreamchess. E ficaram me perguntando as regras do jogo até aprenderem a jogar sozinhos. Hoje até o Rafael, o mais novo, consegue ganhar algumas partidas no nível mais fácil. O curioso da história é que eu nunca havia falado em xadrez antes e, com o interesse deles, acabei desenterrando um tabuleiro meu que estava na casa dos meus pais e que eu usava quando era garoto.
Luis nunca havia pensado explicitamente no aspecto de ficar fora do mainstream, usando Linux em lugar do quase onipresente Windows. Sua visão é que a web será cada mais importante do que o sistema operacional usado para nela navegar.
— Com isso, o sistema operacional se tornará quase irrelevante para os usuários — preconiza. — Talvez meus filhos queiram usar o Windows mais adiante para poder jogar games mais sofisticados, coisa difícil de se achar no Linux. O que eu espero da experiência deles com o Linux é que possam entender e experimentar mais os “internals” da computação, coisa que é muito mais difícil no Windows. Afinal, o Linux nasceu de um espírito quase hobbista, o que torna as coisas bem mais fáceis nessa busca pelos meandros do sistema.
Luis trabalha na Dextra (dextra.com.br), empresa que também tem uma história interessante com o Linux, já que o utiliza desde 1995, antes até das expressões “software livre” ou “open source” existirem. De lá para cá eles se tornaram especialistas nestas tecnologias.
Em tempo, na foto de abertura, em que aparecem as mãozinhas no teclado, o “modelo” é Rafael Dosso, o irmão mais novo.
Fonte: Globo.com

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